"Clarice Bean tem um problema" é o sexto livro da série infanto-literária britânica "Clarice Bean", escrita por Lauren Child. Nos livros, Clarice, uma garota de sete anos, conta sobre a sua vida diretamente aos leitores, como uma espécie de diário oral, com toda a inocência, curiosidade e espontaneidade que uma criança dessa idade pode possuir. Neste volume, a pequena dialoga principalmente sobre as dificuldades na escola, seu relacionamento com seus amigos e Ruby Redfort — um seriado do qual é fã.

"Coisas que não dá pra explicar. Tipo, porque QUE não se escreve só Q? E por que abrir a boca na hora errada pode te deixar numa tremenda fria? Ultimamente eu não paro de ter problemas, igual ao Carlinhos Zucchini, e olha que ele é o garoto que mais apronta na escola... Uma pessoa que é ab-so-lu-ta-men-te genial pra se livrar de problemas é a Rudy Redfort. Ela é aquela garota detetive dos livros e da TV, sabe? Eu ia amor se fosse estrela de TV. Fiquei até sonhando com isso depois de saber que vai ter uma peça de teatro na escola. Talvez um desses caçadores de talentos me veja por lá. Sabe... se eu fosse uma dessas estrelas mirins não ia precisar participar daquela estúpida maratona de ortografia que a dona Clotilde inventou. Eu não sou boa pra soletrar e não ser boa pra soletrar pode te dar muitos pobremas, quer dizer, problemas." — sinopse encontrada na orelha do exemplar físico, publicado no Brasil pela editora Ática em 2008. 

Mesmo tendo como embasamento apenas este breve resumo, nota-se o discurso informal, infantil e cativante de Clarice, nossa protagonista e narradora. Essa forma de escrita, além de aproximar o leitor do texto, é extremamente convidativa para seu público alvo, qual será eficazmente atingido pelo carisma da personagem e ansiará pela devora do livro, querendo saber o que irá acontecer com a nova amiga  do universo literário.


Com "pobremas" em ortografia e sofrendo nas garras da professora por inventar palavras (como "superultraanimadésima"), a menina que não consegue arrumar espaço em sua cabeça para lembrar a forma correta de escrever cada palavra, prestes a participar de uma maratona ortográfica, põe-se a estudar lendo o dicionário, onde começa pela letra Q. Ainda que não consiga decorar as grafias, descobre que nem tudo foi em vão ao receber elogios de seu novo professor, Washington, que está em sua escola por intercâmbio. O pequeno diálogo entre os dois é uma convocação a pensar sobre os "pobremas" de Clarice, observando o aspecto além das páginas do livro:

"Acho que um dia você ainda vai se tornar uma excelente escritora."
"Mas professor, eu nem sei escrever direito a palavra excelente! Como posso ser uma excelente escritora se eu nem sei escrever excelente?"
"Não é a ortografia que faz de alguém um escritor. O que importa é ter alguma coisa interessante para dizer - e, sabe de uma coisa, você é uma pessoa que sempre tem alguma interessante para dizer. E outra coisa, CB, valeu a pena estudar, você está com um vocabulário maravilhoso."

Aliás, "Clarice Bean tem um problema" sempre traz questionamentos e novas perspectivas a quem o lê. Nos títulos dos capítulos, uma frase de reflexão é deixada remetendo a qual obstáculo Clarice enfrentará nas próximas páginas: "coisas que parecem ser chatíssimas não são tão chatas quanto a gente imagina", "tem coisas que é melhor a gente não saber, "será que mentir pode ser uma coisa boa?" e muitas outras, na maioria das vezes aprendida pela garota ao assistir/ler à Rudy Redfort — afinal, séries também são uma forma de manifestar cultura.

E são essas "indiretas-diretas" deixadas no livro que fazem dele algo tão especial. Tanto para os adultos como para as crianças, cada ação de Clarice a fim de mostrar o seu melhor ou tentar ajudar algum amigo é confortante, desperta empatia e até o mesmo o desejo de abraçar a personagem e dizer "ei, tudo vai ficar bem". 

Por trás de tudo isso, os méritos ficam sob responsabilidade de Lauren Child, autora que teve a brandura de criar uma personagem que sintoniza tão bem com todas as idades com sua visão de mundo. A inglesa que carrega "criança" até no nome, sendo também criadora de Charlie e Lola, desenho animado nascido de uma série de livros que mostra o cotidiano bem humorado de dois irmãos. Lauren conta que conheceu uma pequena Lola em um trem na Dinamarca, e criou a personagem baseando-se na garota que encontrou - dando a ela o irmão mais velho Charlie. 

Com sua transmissão original realizada em 2005, popularizou-se no Brasil após chegar na rede aberta TV Cultura, em 2006. Entretanto, quatro livros sobre os irmãos foram lançados antes da criação da série animada e, mesmo depois de sua estreia na televisão, Lauren continuou a escrever Charlie e Lola, resultando em mais quase vinte volumes baseados nos episódios televisivos. 


Clarice Bean veio um pouco antes, com o primeiro livro lançado em 1999 sob o título nacional de "Clarice Bean - Sou Eu". Além dos outros títulos publicados sobre a mesma personagem, ainda rendeu uma saga literária dedicada apenas a Rudy Redfort, dando finalmente vida a detetive que tanto era aclamada por Clarice em suas histórias. "Clarice Bean tem um problema" ainda foi vencedor do prêmio da Associação Literária WOW. 

O que a muitos poderia significar apenas um livro banal ou "mais um título infantil" foi, para mim, causa de grandes momentos de felicidade durante a leitura e provocação ao imaginário e às concepções de aprendizado, amizade e, principalmente, da doce inocência de uma criança que, mesmo nas dificuldades de seu contexto, tenta enxergar uma ponta de positividade. Talvez devamos ser um pouco mais como Clarice e, por isso, deixo o seguinte trecho principalmente aos que tiveram um dia ruim:

"Sabe, tem coisas difíceis de explicar. Certas coisas que dão errado acabam dando certo. E às vezes um pouco de azar acaba se transformando numa tremenda sorte."