Uma colegial entediada escreve em seu caderno para escapar da realidade. Em suas linhas, Melissa cria Ellipsia, um mundo mágico com elfos, trolls e espantalhos. Em uma visita ao hospital junto a sua mãe, conhece Oliver, um garoto de 22 anos que está em coma há quatro e que, segundo os médicos, nunca irá acordar. Crente que Oliver consegue ouvir o que se passa ao seu redor, começa a ler suas escritas a ele e ambos tornam-se personagens em Ellipsia. Um cavaleiro imponente e uma recém chegada ao novo universo passam a aventurarem-se juntos em meio aos encantos impregnados no local, mas nem tudo é tão perfeito quanto aparenta ao primeiro olhar.

"Como você pode separar o certo do errado se você só conhece um lado da história? Todo mundo está apenas lutando pelo que acredita. É isso que as pessoas fazem o tempo todo... e quanto a você? Pelo que você luta?"

Em seu corpo metalinguístico, a graphic novel Melissa em Ellipsia é mais do que uma mera fantasia: é luta, é questionamento, é existência. Ao mesmo tempo que é adocicada e romântica, é amarga e real. É bipolar e nada superficial, exige exploração e aprofundamento. Melissa é mel, é favo, mas também é forte como uma abelha e firme ao que acredita.



Nas Cartas ao Leitor, o autor G. Profeta faz referências à O Mágico de Oz, As Crônicas de Nárnia, Alice no País das Maravilhas e Peter Pan, todas histórias com terras semelhantes a Ellipsia e uma jovem protagonista sonhadora que passa a conhecer as beleza (e crueldades) desse novo mundo mágico. O breve relato nos faz perceber o quão próximo Melissa está das realidades fantasiosas dos grandes clássicos da literatura e cinema. 

Enquanto isso, pelos dons da ilustradora Ligia Zanella, a sensação que fica é de estar lendo um típico mangá japonês, mesmo que aqui não exista a regra do "de trás para frente". Dos mais visíveis traços físicos dos personagens aos mínimos detalhes de sombreamento monocromático, seu trabalho de certo modo transforma o leitor em vizinhos chegados ou mesmo moradores de Ellipsia.

Talvez um fato interessante a ser citado sobre essa obra nacional seja os bastidores de seu processo de publicação, que só fora concretizado após financiamento coletivo on-line. Orgulhosamente, fui uma das apoiadoras desse projeto e hoje o possuo em mãos, com direito a autógrafo e meu nome impresso. Gratificante.


A leitura pode ser rápida, mas passa longe de ser esquecível. Se busca conhecer novos artistas brasileiros e ao mesmo tempo desfrutar de uma boa leitura, acompanhar as mudanças do curso de vida dos adoráveis protagonistas do volume único de Melissa em Ellipsia é uma grande recomendação que, com certeza, agregará algo ao seu dia.